Esporotricose, um agravo de notificação compulsória e seus riscos em gatos domésticos: 15 casos com lesão nasal refratária

M. C. H. Cavalcanti, S. A. Pereira, I. D. F. Gremião, R. C. Menezes

Resumo


Esporotricose é uma doença causada por fungos do complexo Sporothrix spp. e se encontra em situação hiperendêmica na região metropolitana do Rio de Janeiro, estado do Rio de Janeiro, Brasil, onde sua transmissão para os seres humanos é atribuída ao contato com o gato doméstico que é considerado a sua principal fonte de infecção. Somente no ano de 2013 é que a esporotricose humana passou a ser oficialmente considerada como um agravo de notificação compulsória e no ano seguinte em animais, especialmente felinos, cujas lesões encontram-se frequentemente na região nasal e podem persistir por refratariedade à terapia antifúngica de eleição, inclusive com evolução do animal para óbito. Este trabalho descreve as possíveis variáveis epidemiológicas e clinicopatológicas relacionadas aos riscos de esporotricose em gatos domésticos que apresentavam lesão nasal refratária ao itraconazol. Foi realizado um estudo observacional retroprospectivo descritivo de uma série de casos com amostra de conveniência composta por 15 gatos com esporotricose nasal refratária à terapia com itraconazol oral (8,3 a 27,7mg/kg/dia) após mínimo de oito semanas de tratamento regular entre os anos de 2007 e 2009. Os animais foram atendidos no Laboratório de Pesquisa Clínica em Dermatozoonoses (Lapclin-Dermzoo) do Instituto Nacional de Infectologia (INI), um centro público de referência em assistência gratuita na esporotricose humana e animal, no qual foi fornecido antifúngico aos pacientes. Os dados epidemiológicos e clínicos foram obtidos em prontuários do setor. Todos os animais foram submetidos à biopsia com punch em lesão nasal refratária, sendo incluídos no estudo apenas aqueles com isolamento micológico a partir do fragmento acondicionado em salina estéril. Um segundo fragmento, fixado em formalina tamponada e emblocado em parafina, foi submetido a histotécnicas com hematoxilina e eosina, e à impregnação pela prata de Grocott. Todos os dados foram armazenados e analisados com o emprego do programa Excel 2010®. No grupo de animais incluídos na investigação, houve predomínio de gatos machos não castrados (66,7%), com idade inicial mediana de dois anos e cinco meses. O acesso do animal à rua foi um relato comum, com possibilidade de inoculação do fungo por meio de arranhadura em 40,0% dos casos. O tempo de procura por atendimento após verificação de sinais clínicos pelo tutor teve mediana de sete semanas (2 a 20). Onze gatos (n=15) apresentaram estado geral inicial bom, com predomínio de lesões apenas na região nasal (n=8), seguidamente em três sítios não contíguos (n=5) e dois não contíguos (n=2). Houve verificação predominante de lesões ulceradas na região nasal (9/15), de nódulo em seis casos e de tumoração em quatro casos. A lesão macroscópica acometia apenas a pele nasal em nove casos, estendendo-se para a mucosa em seis. Espirros foram o principal sinal extracutâneo observado (n=9), além de dispneia (n=5) e secreção nasal (n=1). Na histopatologia, foi verificada a presença de lesão piogranulomatosa com estruturas leveduriformes compatíveis com Sporothrix spp. em 12/15 casos com brotamento em 53,3% após tratamento regular com mediana de 40 semanas (8 a 336). Ocorreu evolução para óbito associado à doença em 6/15 casos. A conclusão obtida foi que gatos machos, jovens, não castrados, semidomiciliados apresentaram características predisponentes à esporotricose, enquanto a presença de lesão nasal, de espirros e diagnóstico mais tardio demonstraram a possibilidade de persistência da lesão e agravamento do quadro clínico por falha terapêutica mesmo após terapia regular prolongada com fármaco de eleição.

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